Gastronomia por Roberta Sudbrack
08/12/2006 ..
A vida é simples
Saio todos os dias para passear com o Fredão, meu fiel golden retriever. Muitas vezes correndo, preocupada com alguma coisa, atrasada, quase sempre! Quando a gente está assim, perde muito da vida. Perde lances simples, interessantes, reconfortantes.
Ontem estava mais tranqüila, ainda tomada de emoção e anestesiada pela sensação da conquista de um prêmio de tamanha importância. Andávamos pela rua sorrindo – sim, o Fredão sorri, principalmente quando está passeando ou perto do vidro de biscoitos! Quando a gente resolve olhar o mundo e está disposto a enxergá-lo com bons olhos “no matter what”, as chances de sermos felizes, nem que seja por alguns instantes, aumentam significativamente.
Comecei a observar as pessoas que cruzavam por nós, como costumo dizer: detalhe é a minha vida! E os detalhes de um simples cruzar pela rua podem dizer muito de cada um. É igual carrinho de compras no supermercado, fico sempre observando o que cada um tem no seu. Consigo chegar a conclusões incríveis sobre cada pessoa através disso!
Mas voltando à rua, alguns cruzam por cruzar. Outros olham, mas disfarçam. Outros, por pouco não nos atropelam. Outros olham um ser tão especial como um cachorro, com distância e desprezo, e preferem até mudar de calçada. Outros nos reconhecem, mas não parecem preparados para fazer o que realmente têm vontade, muitas vezes, simplesmente falar. Outros falam, pedem receitas no momento em que o sinal vai abrir, ficam estarrecidos com a possibilidade do diálogo, saem sorridentes com a receita embaixo do braço.
Depois de observar as pessoas e suas diferentes reações, resolvi observar as atitudes do Frederico em relação a essas reações tão distintas. Foi mais do que divertido, foi uma lição de vida.
Aos que cruzam afobados, ele olha com surpresa. Aos que cruzam por cruzar, ele dispensa se dar ao trabalho de olhar. Aos que mudam de calçada, ele me olha com afeto e abana o rabo. Aos que quase nos atropelam, ele encara com firmeza. Aos que pedem uma receita, ele cumprimenta com distância e pacientemente aguarda o final do diálogo.
Mas a cena mais marcante para mim foi a de um senhor se aproximando sorrindo, aquele sorriso que só quem gosta de cachorro sabe dar e não dispensa toda vez que avista um. Poderia ter sido apenas mais um a cruzar pela rua, poderia ter passado por passar. Afinal Frederico estava de cabeça baixa, preocupado em decifrar os cheirinhos do bairro, seu passatempo preferido. Mas a energia do sorriso fez com que ele prestasse atenção a esse cruzar, parasse, abanasse o rabo, sorrisse de contentamento. Foram segundos, mas o abanar de rabo e a atenção que ele dispensou disseram tudo.
Logo à frente, no sinal, seu momento mais concentrado, uma senhora sorriu da mesma maneira e imediatamente ele olhou. Ela disse: “mas que olhar carinhoso, viu como eles percebem quando a gente gosta deles?”.
Contei para ela a cena anterior e chegamos juntas a seguinte conclusão: a vida é simples.
Tem gente que vive e não percebe isso. Tem gente que aproveita a simplicidade da vida de maneira tão absoluta que essa energia é capaz de mover o mundo.
Tem gente que gosta de misto quente, tem gente que não gosta!
Até!
07/12/2006 ..
Os Forasteiros - capítulo II
Na noite anterior tínhamos chegado em casa às 2h da manhã e combinamos nos encontrar novamente às 6h, na cozinha da minha casa, para começarmos o mise en place do almoço que seria servido às 12h pontualmente. Já que não admito pré-preparo, isso significava que prepararíamos tudo na hora, um almoço de oito pratos. Uma equipe de duas pessoas!
Minto, três. Quando acordei às 5h30m, minha avó guerreira já estava na cozinha com o café e a torrada à nossa espera e disposta a arregaçar as mangas. Nunca vou me esquecer de quantos chuchus ela descascou e laminou para a preparação da minha versão de camarão com chuchu, prato que eu adoro e seria um dos amuse-bouches do almoço.
Às 11h em ponto partimos confiantes para a missão. Invadimos meio sem jeito a cozinha do Senac Bistrô no Flamengo com tudo por fazer, menos o mise en place, é claro! Somos loucos, mas não suicidas!
O almoço foi ótimo, começou na hora marcada, tudo correu bem, como se estivéssemos em casa. Os aplausos foram sinceros e as declarações também. Foi uma tarde e tanto. Mas não pudemos ficar para as despedidas, porque em poucas horas estaríamos preparando um jantar do outro lado da cidade! Então, saída pela direita!
Enfim, essa foi a minha rotina por um ano, até que um dia a casinha laranja à beira do canal, que naquela época era verde, acenou para mim e disse: alugue-me!
Mas antes disso acontecer, fomos convidados, Marcelo e eu – os forasteiros – para uma festa muito importante da gastronomia da cidade: o lançamento do Guia Danusia Barbara de Restaurantes. Pensei em não ir, não sou muito de festas, a não ser que seja na minha cozinha! Mas em consideração a Danusia que tinha me recebido nessa cidade de braços mais abertos do que os do Cristo Redentor, resolvi que iria.
Chegamos lá, os forasteiros, sem entender bem o cerimonial, o que aconteceria, qual era o roteiro da noite. Circulamos, tomamos champanhe, comemos sushi e sorvete, uma festa! Era mesmo uma festa linda, todos felizes, toda a nata da gastronomia do Rio reunida. Pensamos: “um dia a gente chega lá!”.
Então, depois de algum tempo circulando, começamos a nos encontrar com algumas pessoas conhecidas que começaram a me parabenizar. Me abraçavam, davam parabéns, eu agradecia e não entendia nada. Olhava para o Marcelo, ele me olhava. E lá vinha outro: “parabéns”! E outro: “parabéns, muito merecido”.
Resolvemos na tentativa de encontrar alguma pista do que estaria acontecendo, folhear o guia que havíamos comprado. Percebemos que tínhamos sido citados na parte de preparação de jantares em residência, pensamos, deve ser por isso os parabéns! Ficamos felizes da vida.
Danusia subiu ao palco para entregar os prêmios aos melhores do ano na gastronomia do Rio, resolvemos assistir a cerimônia, já estávamos ali mesmo. Melhor restaurante! Melhor sommelier! Melhor Maitre! Aí veio o Troféu Ralador, para os chefs que mais tinham “ralado” naquele ano: Roberta Sudbrack! Eu? Era eu mesmo, um dos chefs que mais tinha ralado, põe ralado nisso, naquele ano!
Recebi o prêmio abracei o Marcelo, nos olhamos e dissemos: “Ah! Então era isso, por isso os parabéns”! Quando estávamos no meio da gargalhada, Danusia anuncia: “e agora o prêmio mais importante da noite: o de chef do ano! Esse ano o prêmio vai para uma gaúcha... Roberta Sudbrack”!
Subi ao palco desnorteada de emoção, uma forasteira tomava posse do prêmio mais importante de gastronomia do Rio naquele ano, e detalhe, sem ter restaurante! Fiquei por dias transtornada com as minhas emoções, aquele foi sem dúvida o prêmio mais importante da minha vida.
Está no restaurante desde que abrimos, levei-o para lá antes mesmo dos pratos e copos. Estava lá sozinho, num cantinho, ano passado esse cantinho foi invadido por nove outros prêmios e esse ano por mais alguns. Mas ele continua lá e de lá só sairá comigo. Ele é a prova de que com perseverança se escreve uma história, uma fábula verdadeira.
Dessa fábula três personagens fazem parte da minha história:
O Cury, que momentaneamente se reconciliou com as gravatas e as salas de janelas fechadas. mas que logo voltará para as altas temperaturas e para as panelas. Tenho certeza disso, pois o seu amor é infinito e eu o meu também!
Junior, o “SubSuper”, que conheci no Senac Bistrô no dia daquele almoço e pensei: é o cara!
E Danusia Barbara, que desde que cheguei na Cidade Maravilhosa me estendeu a mão, me ensinou e respeitou me como ninguém. E ontem ao anunciar o prêmio, mais uma vez me deixou desnorteada de emoção quando disse a seguinte frase: “Nossa chef do ano é Roberta Sudbrack, o orgulho carioca”.
Cury, não somos mais forasteiros! Já para cozinha!
Até!
06/12/2006 ..
Os forasteiros!
Dizer que estou feliz é muito pouco. Acredito que mesmo que tentasse não conseguiria expressar agora tudo o que estou sentindo. Desde segunda-feira estou me sentindo assim, as homenagens do Ego pelo nosso centésimo post, as sutilezas da Primeira Ministra, a visita da Rainha, os telefonemas do Ministro da Música e da Presidente, a presença de tantos confrades no último T&D do ano...
Foi muita coisa. Muito sentimento, muita alegria. Ficou tudo muito intenso dentro de um corpo muito, muito cansado!
E agora a conquista de mais esse prêmio: Chef do Ano, pelo Guia Danusia Barbara de Restaurantes e a cotação de 5 estrelas para o Roberta Sudbrack.
Muita coisa. Significa muita coisa para mim essa conquista, vocês não tem idéia. Primeiro pelo respeito e pela admiração que tenho pela Danusia Barbara, uma Diva da gastronomia brasileira, uma estudiosa profunda, uma das pessoas mais preparadas tecnicamente e emocionalmente para perceber delicadezas e sutilezas que conheço. Só isso para um cozinheiro, já diz tudo. Mas ser escolhida numa cidade como essa, repleta de talentos, pela terceira vez, por um Guia e por uma mulher que é capaz de decifrar o sabor único e sutil da gordura do pinólis... Já vale ter passado por esse mundo!
Apesar disso, sei que hoje não conseguira expressar bem todo esse meu sentimento, porque estou literalmente exausta de emoção. Mas vou contar, em dois capítulos, uma linda história, uma fábula gastronômica, repleta de personagens e fatos interessantes. Essa fábula certamente ilustra todo esse sentimento.
Forasteiros – capítulo I
Há alguns anos, quando resolvi mudar com facas e panelas para o Rio de Janeiro, todos me perguntaram: “mas por que o Rio e não São Paulo?”.
Naquela época, ainda estava chefiando a cozinha do Palácio da Alvorada, as propostas que surgiam eram incríveis, tentadoras! Mas todas, todas mesmo, em São Paulo! Naquele momento, o meu compromisso com o Presidente, o meu comprometimento com a finalização do trabalho na cozinha do Palácio e o meu envolvimento com tudo - inclusive e principalmente com a minha equipe – me fizeram perder grandes oportunidades de abrir o meu restaurante. Todas, todas mesmo, em São Paulo!
Mas quando chegou a hora de partir, surgiram novamente boas e confortáveis propostas de trabalho. Todas? Em São Paulo!
Era hora de decidir, minha carreira estava em jogo, meu sonho de abrir o restaurante, todas as cartas estavam lançadas sobre a mesa... O Rio de Janeiro continuava lindo, mas sem nenhuma proposta de trabalho tentadora. Foi fácil, decidi imediatamente: vou morar no Rio e abrir meu restaurante lá. Gosto de desafios!
A decisão foi fácil, só a decisão! Eu que acabara de comandar a cozinha mais importante do país, agora estava sem cozinha! Durante um ano me propus a fazer um laboratório de conhecimento do gosto carioca, voltei a preparar jantares na casa dos clientes, voltei no tempo, voltei à batalha! Sem equipe, meu fiel assistente foi um cara louco que me escreveu um e-mail de Sidney, na Austrália, e que não sei por que razão, resolvi responder!
Esse cara maluco se chama Marcelo Cury e esse encontro foi uma das coisas mais lindas que já me aconteceram! Acenei com a possibilidade dele trabalhar comigo e na semana seguinte, lá estava ele, dentro da cozinha comigo, preparando um almoço para o Prefeito do Rio de Janeiro.
O tempo foi passando, a rotina era barra pesada. Muitas vezes preparávamos quatro, até cinco jantares numa semana, só os dois. Carrega caixa para lá, carrega caixa para cá, no meu velho Peugeot. Fazer compras, ir à peixaria, entrar em cada fria! Mas estávamos lá, firmes, fortes, insistentes e cada vez mais ligados a uma causa, um sonho e um ao outro.
Um belo dia, fomos chamados pela Danusia Barbara, mulher incrível que eu admiro como ninguém, para preparar nada mais nada menos do que um almoço para a confraria dos Companheiros da Boa Mesa, confraria de respeito, a mais conhecida e respeitada do Rio de Janeiro! Saímos então em busca de uma cozinha para chamar de nossa, já que nesses casos, o chef responsável pelo preparo do almoço tem que necessariamente ter um restaurante! Batemos com algumas caras na porta, mas essa história não me era estranha, então não desanimei.
Finalmente encontramos um lugar onde fomos bem recebidos, mas aí tínhamos outro pequeno problema pela frente: naquela semana tínhamos jantares agendados para todos os dias! O almoço seria para 40 pessoas e minha equipe era: eu e Marcelo, Marcelo e eu!
Continua...
05/12/2006 ..
Blog é igual a botequim!
Blog no meu entender é igual a botequim. A gente pode freqüentar vários, mas tem um do coração. Senão embola o meio de campo! Quando me mudei para o Rio vários amigos me disseram: para ser carioca, é mais importante escolher um botequim, do que um time de futebol!
Bem, o time de futebol eu me dei ao direito de continuar com o meu, mas botequim eu escolhi rapidamente: o Jobi. Botequim é quase a nossa segunda casa. É para lá que a gente vai quando quer comemorar, chorar, beber, gargalhar ou simplesmente pensar.
Blog é assim também. O nível de intimidade que a gente cria por aqui é parecido com a intimidade que a gente tem que ter com o garçom do botequim, senão não tem chope na pressão que saia!
No blog a gente tem a liberdade de falar o que quer, do jeito que quiser, sem se preocupar com o que vão pensar. No botequim também. Mas, nesse caso, só no botequim do coração, senão pode pegar mal!
No botequim a gente vai sempre à procura daquela receita simples, preparada com esmero, coisa do tipo comidinha de casa. No blog também, seja misto quente ou salmão, tudo dentro dos princípios desse espaço: simplicidade e sinceridade.
Aliás, é isso, fórmula infalível para blogs e botequins: simplicidade e sinceridade! Se não for assim ninguém fica!
Até!
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